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O PRIMEIRO PASSO

Ao iniciar a prática e o estudo do Yoga começamos a receber instruções de como utilizar o corpo, como regular a respiração e como manejar a mente. Existem regras e abordagens práticas relacionadas a cada um destes níveis, é isso que torna o Yoga tão abrangente e amplo. O Yoga Sutra, a principal escritura de Yoga, apresenta inúmeros meios de se buscar o estado de Yoga. Na clássica divisão dos oito membros do Yoga temos desde conceitos ligados à nossa forma de se relacionar com o mundo que nos cerca até o conceito da plena absorção da mente. Mas será que Yoga é apenas um conjunto de técnicas que quando corretamente seguidas nos leva a alcançar todos os objetivos perseguidos por nós? Será que apenas com um bom manual de instruções de Yoga o praticante pode ter o sucesso esperado através da sua prática?
Pois o próprio Yoga Sutra, o manual de instruções do praticante, responde esta pergunta. No primeiro sutra já está a resposta para estas questões básicas e, ao mesmo tempo, profundas. O sutra “Atha Yoganusasanam” traz a afirmação de que a instrução do Yoga é baseada na transmissão oral, ou seja, é uma instrução não baseada no estudo pessoal através de livros, mas no vínculo vivo entre professor e aluno. Yoga é uma prática alicerçada na experiência direta e, por isso, é irrefutável. Não é um ensinamento baseado no estudo acadêmico, é uma compreensão que se desenvolve a partir da relação com o professor, a partir da capacidade do praticante de se expor à instrução apropriada.
Muito antes de iniciar o caminho de Yoga nós já exercemos tal capacidade. Nossos primeiros professores foram nossos pais, irmãos, parentes, amigos e , até mesmo, pessoas não muito próximas a nós que influenciaram nossas atitudes. Mesmo que não tenhamos chamado este processo de transmissão oral, a nossa tradição oral já existe. Já temos um acúmulo de conhecimentos e atitudes herdadas de pessoas próximas a nós, e estas pessoas também herdaram de outras, que herdaram de outras...
Ao refletir sobre as pessoas que nos marcaram durante nossa infância surgem muitos sentimentos profundos, alegrias, tristezas. Alguns talvez fizeram o próprio papel do bom professor, pois passaram para nós certos valores que mantemos até hoje. E, provavelmente, estes que mais nos influenciaram, conseguiram isto porque agiram com o coração. Isto é a transmissão oral positiva a que nos referimos, a herança que passa através de uma convivência madura, respeitosa e duradoura entre duas pessoas. Mas, outros nos deixaram marcas negativas e fizeram brotar em nós sentimentos ruins. Isso também nos marcou e se manteve presente através de atitudes automáticas que nós mesmo tomamos.
Porém, a transmissão oral a que o Yoga se refere não está baseada em atitudes pessoais, mas em um conhecimento que se mantém vivo graças à dedicação de grandes praticantes ao longo da história. Este conhecimento tem por objetivo oferecer meios práticos para qualquer pessoa, em qualquer cultura e em qualquer época, reduzir ou eliminar o sofrimento que surge das dificuldades sentidas no relacionamento com o mundo e consigo mesma. O papel do professor é auxiliar o praticante a encontrar as ferramentas apropriadas para suas necessidades e, para isso, é vital a construção de um relacionamento respeitoso, maduro e duradouro entre ambos.
É muito importante refletir sobre os conceitos do Yoga a partir de nossa vida pessoal, pois algo que vem de uma outra cultura pode facilmente ser recebido por nós em seus aspectos mais superficiais, mais visíveis ou exteriores. O Yoga deve nos fazer olhar para nós mesmos, a única razão de sua existência é devolver a nós uma profunda e reveladora apreciação da vida. Se transformarmos o Yoga em um conjunto de técnicas a serem decoradas e repetidas, esperando que daí surja algum milagre, a essência deste conhecimento morre e nenhum resultado de valor pode ser esperado. Isto deve estar claro para quem vai iniciar seu caminho no Yoga, pois esta é a disciplina que será transmitida por Patanjali no Yoga Sutra.

Jorge Luís Knak

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