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EM BUSCA DE MUDANÇA

O sistema de Yoga às vezes parece exagerar no uso da palavra “duhkha”, que é traduzida como sofrimento. Na verdade, este termo tem um sentido mais amplo do que simplesmente sofrimento. “Duh” significa contração, dor, aperto e “kha” significa “caverna do coração”. Portanto, ‘duhkha” se refere ao sentimento de dor ou aperto na “caverna do coração”. A expressão “caverna do coração” é aqui usada para mostrar que se refere a algo muito interno, pessoal, profundo. Quando sentimos esta sensação de dor surge juntamente um desejo de se livrar dela, pois é algo que nos traz um incômodo profundo, um desconforto interno. Entre os motivos pelos quais este termo é tão usado em Yoga, está o fato de que o propósito da prática de Yoga é reduzir ou eliminar duhkha, pois não há dúvida de que todos nós queremos nos livrar desta sensação.
Este é o ponto onde começamos a ter vontade de fazer algo que revele em nós qualidades como liberdade, leveza interna e bem-estar. Só conseguimos construir um caminho de transformação, de real libertação, quando temos a noção do desconforto e sofrimento que é possível acumular ao longo da vida. Ao perceber mais claramente sentimentos de insatisfação presentes em nós, podemos criar a motivação necessária para realizarmos ações que causem a redução ou eliminação deste incômodo interior. Se optamos por ignorar esta realidade, ela brevemente irá tingir nossa relação com o mundo exterior, pois não há como manter completamente escondido algo que faz parte de nosso mundo interno. Definitivamente, jogar a sujeira para baixo do tapete não é a opção mais inteligente nesta situação.
A partir desta análise, podemos perceber que “duhkha” traz consigo um aspecto positivo, pois é a força que nos motiva a buscar uma certa mudança, uma transformação. Sempre que nos sentimos desconfortáveis tentamos mudar de posição. Este aspecto positivo de “duhkha” é muito importante, pois é a oportunidade para o aprendizado. “Duhkha” é como a febre que nos avisa que o corpo está doente, tem um importante papel de nos manter atentos às perturbações e desequilíbrios. Corretamente usada, esta força se torna a fonte de uma libertação mais verdadeira e profunda.
Porém, se sempre esperarmos surgir o sofrimento para aí tomar uma atitude, teremos que exercer um esforço muito grande para mudar a situação. Compreendendo o mecanismo que traz o sofrimento como resultado e reconhecendo as causas, podemos passar a atuar nas raízes do problema e evitar que grande parte dele se concretize. Se eu sinto o cheiro de fumaça em um canto da sala e, então, encontro um cigarro caído começando a queimar o tapete, facilmente posso evitar uma acidente maior, porém, se não dou atenção ao cheiro de fumaça e, de repente, sinto o calor do fogo se aproximando, a situação pode ser irremediável. O sutra “Heyam duhkham anagatam” trata deste assunto. Sua tradução literal seria “O sofrimento futuro deve ser evitado”. Uma frase simples, mas que, dentro do contexto do Yoga, tem uma importância fundamental. Este sutra poderia ser visto como o motivo da própria existência do Yoga.

Organização do texto: Jorge Luís Knak
Bibliografia: “The Heart of Yoga” – T.K.V. Desikachar
“The Essence of Yoga” – Bernard Bouanchaud

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