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CRÔNICAS
Minha
lista
Dizem que a gente é o que come. Concordo em parte, ou até
plenamente, se considerarmos também onde comemos, com quem,
depois e antes de fazer o que, e mesmo – diria acima de
tudo – quem. Ou seja, a regra é válida quando metafórica.
Somos o que saboreamos.
No final de Manhattan, Woody Allen faz sua lista de
certas coisas que fazem a vida valer a pena e, entre
suspiros, cita exemplos tão variados quanto Grouxo Marx, o
segundo movimento da Sinfonia de Júpiter, filmes suecos,
caranguejos no San Wo’s, a gravação de Potatohead
Blues do Louis Armastrong, Marlon Brando, Frank Sinatra,
A educação sentimental do Flaubert, as pêras e maçãs
de Cézanne. E encerra com o rosto de Tracy, por quem seu
personagem no filme se descobre apaixonado.
Desde
que assisti a Manhattan, por alguma razão venho
resistindo à vontade de redigir minha própria lista.
Mentalmente já fiz várias, sempre diferentes e parecidas
entre si, assim como pratiquei o exercício com amigos que
gostam tanto de Woody Allen quanto eu. Mas até hoje nunca
tinha colocado no papel nenhuma delas, talvez para não dar
um caráter definitivo àquilo que tem o potencial de mudança.
Eu disse potencial, não necessidade. Então vamos fazer
assim: hoje têm um monte de coisas que me fazem achar que a
vida vale a pena, e é delas que falo, torcendo para que o
tempo acrescente outras à minha lista e, de preferência, não
tire nenhuma.
Ao
modo do Woody e entre suspiros, eu citaria, além do próprio,
os filmes do Chaplin, o camarão à baiana do Bologna; as crônicas
do Verissimo; o segundo movimento do concerto para piano do
Mozart; os contos do Faraco; o macarroni a la Zingara da
Cantina Pastasciutta; Eric Clapton cantando Wonderful
tonight; quadros do Monet; poemas do Drummond; Perfect
day, na voz de Lou Reed; dois cálices de um tinto dos
bons; a memória do humor agridoce do meu pai; Clarice
Lispector, Nei Lisboa, filmes do Jorge Furtado; terapia com
o Renato Breda. E, depois de um suspiro um pouco mais
profundo do que os outros, me desculpando pelo açúcar, os
olhos verdes do Carlos – e tudo que vejo neles.
novembro/2004
E
agora?
O coquetel de lançamento foi movimentado – família
grande, muitos amigos –, o humor está ok e o efeito do
vinho ainda nem passou, mas a pergunta já começa a
incomodar: e agora? A resposta é defensiva: e agora é
prolongar ao máximo os 15 minutos de fama e não pensar no
assunto pelo menos por um tempo (uns dois ou três dias, com
algum esforço, às vezes se consegue). Desligar é preciso:
foram anos de trabalho, escrevendo, reescrevendo, enchendo
lixeiras, ouvindo opiniões diversas, respeitáveis e não
raro desconcertantes pelo seu antagonismo. E depois a luta
para editar, tudo muito difícil, bem como tinham avisado.
Agora é aproveitar. Usufruir o retorno, que não será dos
maiores. Isso também avisaram.
Já
no dia seguinte à sessão de autógrafos, o e-mail de um
amigo entusiasma: é a primeira manifestação de alguém
que não é da área, e vem em forma de agradecimento. O
livro foi a sua companhia naquela manhã de inverno, e o horário
da mensagem confirma: sete e meia. Mais: ele diz que só não
leu tudo porque economizou dois contos para depois. Aquilo
arrepia. É um ótimo começo. Se na manhã seguinte já
chegou uma mensagem, nos próximos dias devem chover
e-mails. Engano. Tempos de seca. Ou nem tanto: de vez em
quando uma ou outra nuvenzinha aparece, e a primeira já foi
suficiente pra irrigar os olhos. Alguns colegas fazem
elogios. No seu programa de rádio favorito, o livro é
citado entre os lançamentos do ano que deram mais prazer de
leitura. Há alguma compensação, mas se qualquer retorno
agrada, todo o silêncio perturba.
Aquela amiga exigente não dá um pio a respeito. É o mais
educado a fazer quando a gente não gosta, e a melhor forma
de retribuir a essa polidez é não perguntando nada. Aquele
professor que no segundo grau se rasgava em elogios do tipo
“é minha melhor aluna” e “deves pensar seriamente em
fazer literatura” recebe um exemplar com dedicatória e não
se manifesta nem para agradecer. Vem à memória o comentário
de um colega sobre certa inclinação do mestre por suas
alunas. E é impossível esquecer que ele elogiava o
“frescor e a substância” dos textos olhando a autora de
cima a baixo.
Claro
que nem tudo é silêncio. Correndo por fora, vem a turma
dos comentários ambivalentes. “Li teu livro”, diz alguém,
sorrindo, e em seguida complementa: “adorei a capa”.
Muitos elogiam a dedicatória. A tia que ainda se comporta
como há trinta anos comenta: “Aí, ein, guria? Muito bem!
Quando é que sai o próximo livrinho?” A surpresa maior
é por telefone. Uma voz meio deprimida, de quem recém
acordou – e já são seis horas da tarde – pergunta pela
autora do livro dos ETs. Seria a voz de alguma professora,
que leu nos jornais sobre o projeto Autor Presente? Nada
disso. “Sou ufóloga”, ela declara, cheia de orgulho. E
não adianta tentar desfazer o equívoco, explicando que o título
do livro se refere a um conto alegórico sobre nossos
defeitos e a busca da perfeição. Ela não desiste e
acrescenta: “Não estás muito longe da verdade. Os ETs vêm
para ajudar a nos tornarmos perfeitos.”
Tem ainda a comercialização. É difícil passar por uma
livraria sem dar uma espiada: está lá o seu livro, na
estante de “novidades”, e você conta os exemplares,
discretamente, para conferir na próxima visita: se a pilha
continua igual, é porque não venderam nada, se
desapareceu, conclui que devolveram tudo para o
distribuidor. Não é por acaso que você é fã do Woody
Allen. Sua auto-estima anda parecida com a dele. Outro
problema é o contato com a editora. No início, é aquele
desconforto por quase ter de implorar pelos relatórios de
vendas. Depois de um tempo, quando elas vão caindo, a
vontade é de implorar para que eles não mandem os números.
Precisando de consolo, você pensa em todos os bons autores
que quase não vendem livros, em todo aquele lixo que vende
horrores e principalmente nos autores que você admira e
vendem muito: alguma esperança a gente tem de manter.
Chega
a Feira do Livro e com ela mais calafrios: os parentes e
amigos já foram ao lançamento; quem vai aparecer na praça?
Em frente a uma banca, você ouve alguém perguntando pelo
seu livro, e dando o seu nome. Alguém que você nunca viu
na vida. Salvação. À sua esquerda, uma fila enorme se
forma em frente a um escritor famoso. À sua direita, vários
autores às moscas. Dependendo da perspectiva, o seu caso não
é dos piores: aparecem umas dez pessoas – entre elas
aquele desconhecido, que já chega perguntando: “São
contos, não é? Pensei que fosse outra coisa.“ E
esclarece: outro ufólogo. Ele percebe sua decepção e
acrescenta que vai ler o livro mesmo assim.
Com o tempo é possível rir de tudo, principalmente para
quem já consegue achar graça de véspera. Aquela amiga
exigente aparece de novo e informa que, há meses, está por
dizer que adorou seus contos, mas sempre esquece. E surge a
remota possibilidade de que talvez nem todos que se calaram
tenham odiado o seu trabalho. Seu livro simplesmente não é
a coisa mais importante na vida dos outros, hay que domar o
narcisismo. E esquecer o assunto por uns tempos. Então
chega o convite para participar de um painel cujo tema é
“Publiquei meu primeiro livro: e agora?”
Agora é seguir escrevendo. Quem sabe um livro de auto-ajuda
dirigido a ufólogos e psicografado por um ET por quem você
foi abduzida – arrepios – e posteriormente a CIA
eliminou? Esse vira best-seller.
novembro/2003
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