Luís
Augusto Fischer
escritor e professor de Literatura
Contos
com cara de crônica, aspecto de conversa frouxa e meio
familiar, bom humor temperado com três ou quatro dramas
mais pesados, uma Laura recorrente que dança e tem pesadelos
de perder os movimentos, isso é o que o leitor vai encontrar
no livro da Laís, estreante em ficção.
A
Laís é jornalista profissional, das competentes,
e por isso domina o primeiro dos fundamentos da literatura:
justamente as palavras, as frases, essas entidades de aparência
tão serena e mansa que, no entanto, costumam maltratar
os iniciantes, os ingênuos, os apressados. O caso da Laís
é, portanto, o de quem conviveu e convive com elas, palavras
e frases, de modo próximo e continuado, o que lhe garante
vacina duradoura contra aqueles riscos.
Essa virtude se combina com outra, que igualmente faz bem aos
escritores: a capacidade de olhar para os detalhes, para aspectos
tidos como secundários por nós outros, que passamos
correndo pelas coisas e pelas pessoas. Os contos aqui reunidos
mostram logo e sempre que faz todo o sentido para o escritor
(a escritora, aliás) enxergar o menor, o obscuro, o estranho,
e faze-lo com ênfase, com atenção detida.
Ficou
entre parênteses o dado de gênero - escritora, não
escritor -; foi sem querer, mas ficou bem, porque deu o destaque
que o dado merece e requer. A Laís, que conheço
há tempos, desde que ela fazia a Faculdade de Comunicação,
olha para todas as coisas de um ângulo inequivocamente
feminino. Não, eu não estou dizendo "frágil",
nem "delicado", nem nada que lembre qualquer um dos
clichês com que nós, homens, costumamos brindar
as mulheres. A Laís olha para as coisas com a sensibilidade
meio maternal e meio aflita de quem sabe quanto custa a vida,
e quanto vale pensar nela por escrito, celebrando-a na forma
desses contos.