entre colchetes fica mais confortável
(WS Editor, 2001, 157p.)

Sinopse
Apresentação
Leia um trecho


APRESENTAÇÃO

Vera Karam - contista e dramaturga

Eu sei: talento não se ensina, não se compra, não se dá. Também não "pega", não basta conviver com alguém talentoso; é preciso mais que isso.

Mas uma coisa sempre me intrigou: aqui no Brasil, mais especificamente em Porto Alegre, alguns escritores deram para implicar com o advento (e o crescimento) das oficinas literárias. É engraçado, porque não se vêem artistas plásticos implicando com ateliers de pintura (ao contrário), músicos dizendo que não acreditam em quem, para se aprimorar, freqüentou uma escola de música, ou bailarinos achando que para ser um grande artista, basta dar alguns passinhos graciosos diante da mamãe.

Mas com as oficinas literárias, sabe-se lá por que, alguns escritores resolveram implicar. Acho que ficam com medo de que a escrita se "popularize" demais, que fique muito acessível (é para poucos!) e eles percam o lugar arduamente conquistado!

Não entendo o porquê. Primeiro, porque acho que há lugar para todos e se o mercado é tantas vezes injusto - e o é certamente -, o é para todos; as dificuldades não têm a ver com o fato de haver mais ou menos escritores no mercado.

E depois, será que não acreditam que as pessoas possam se reunir com o objetivo comum de criar e discutir e refletir sobre o que estão fazendo? Não acreditam que um grupo, trabalhando sob orientação de alguém, possa propiciar alguma forma de reflexão e de circulação de idéias que, de outra maneira, levaria muito mais tempo para acontecer?


Acredito que a oficina ajude a reconhecer o material já existente em cada um dos participantes e até a desfazer equívocos de quem se imaginava um gênio e estava enganado. Mas, ainda assim, será que este "gênio" não tem direito de escrever, se tiver vontade? E se ele era ou não o gênio que acreditava, o tempo, sempre implacável, dirá.

Pois bem: a "Oficina do Assis" chega à sua 26ª edição e eu, "veterana" (fiz parte da sétima), sou convidada a escrever a apresentação. Leio os contos e fico pensando: o que dizer? Dizer que vale a pena serem lidos me parece óbvio, pois se eu não achasse, não escreveria a apresentação. Mas, vá lá, vou dizer o óbvio: vale a pena ler esta turma. Eu me emocionei lendo sobre os desencontros da paixão adolescente; o bem humorado, mas cruel retrato de um homem que prefere a companhia do álcool e de desconhecidos a se relacionar de verdade. Tocou-me fundo a rotina daquela dona de casa que, de repente, tem um insight e se descobre insatisfeita, como quem percebe algo insuportável e tem de se afastar, pois, do contrário, não suportaria continuar. Ri amargamente com o "endurecimento", no sentido literal e metafórico, com a angústia do próprio ato de escrever e até com um morto perambulando pelas ruas.

Em comum, percebe-se em todos uma inquietação e algo que considero importantíssimo: o desconforto, o descompasso com o mundo - matéria-prima da escrita - em diferentes estilos e tons.

Por tudo isso, gostei. Gostei e vou gostar sempre que um grupo se reúna em nome da literatura. E ainda por cima, com qualidade!

E se, depois da oficina, o resto for silêncio, é uma questão de cada um, de seus caminhos, de escolhas. Por enquanto, vale festejar que esta oficina tenha chegado ao seu 26º grupo e com tanta coisa a dizer!