Vera
Karam - contista e dramaturga
Eu
sei: talento não se ensina, não se compra, não
se dá. Também não "pega", não
basta conviver com alguém talentoso; é preciso
mais que isso.
Mas uma coisa sempre me intrigou: aqui no Brasil, mais especificamente
em Porto Alegre, alguns escritores deram para implicar com o
advento (e o crescimento) das oficinas literárias. É
engraçado, porque não se vêem artistas plásticos
implicando com ateliers de pintura (ao contrário), músicos
dizendo que não acreditam em quem, para se aprimorar,
freqüentou uma escola de música, ou bailarinos achando
que para ser um grande artista, basta dar alguns passinhos graciosos
diante da mamãe.
Mas com as oficinas literárias, sabe-se lá por
que, alguns escritores resolveram implicar. Acho que ficam com
medo de que a escrita se "popularize" demais, que
fique muito acessível (é para poucos!) e eles
percam o lugar arduamente conquistado!
Não entendo o porquê. Primeiro, porque acho que
há lugar para todos e se o mercado é tantas vezes
injusto - e o é certamente -, o é para todos;
as dificuldades não têm a ver com o fato de haver
mais ou menos escritores no mercado.
E depois, será que não acreditam que as pessoas
possam se reunir com o objetivo comum de criar e discutir e
refletir sobre o que estão fazendo? Não acreditam
que um grupo, trabalhando sob orientação de alguém,
possa propiciar alguma forma de reflexão e de circulação
de idéias que, de outra maneira, levaria muito mais tempo
para acontecer?
Acredito que a oficina ajude a reconhecer o material já
existente em cada um dos participantes e até a desfazer
equívocos de quem se imaginava um gênio e estava
enganado. Mas, ainda assim, será que este "gênio"
não tem direito de escrever, se tiver vontade? E se ele
era ou não o gênio que acreditava, o tempo, sempre
implacável, dirá.
Pois bem: a "Oficina do Assis" chega à sua
26ª edição e eu, "veterana" (fiz
parte da sétima), sou convidada a escrever a apresentação.
Leio os contos e fico pensando: o que dizer? Dizer que vale
a pena serem lidos me parece óbvio, pois se eu não
achasse, não escreveria a apresentação.
Mas, vá lá, vou dizer o óbvio: vale a pena
ler esta turma. Eu me emocionei lendo sobre os desencontros
da paixão adolescente; o bem humorado, mas cruel retrato
de um homem que prefere a companhia do álcool e de desconhecidos
a se relacionar de verdade. Tocou-me fundo a rotina daquela
dona de casa que, de repente, tem um insight e se descobre insatisfeita,
como quem percebe algo insuportável e tem de se afastar,
pois, do contrário, não suportaria continuar.
Ri amargamente com o "endurecimento", no sentido literal
e metafórico, com a angústia do próprio
ato de escrever e até com um morto perambulando pelas
ruas.
Em comum, percebe-se em todos uma inquietação
e algo que considero importantíssimo: o desconforto,
o descompasso com o mundo - matéria-prima da escrita
- em diferentes estilos e tons.
Por tudo isso, gostei. Gostei e vou gostar sempre que um grupo
se reúna em nome da literatura. E ainda por cima, com
qualidade!
E se, depois da oficina, o resto for silêncio, é
uma questão de cada um, de seus caminhos, de escolhas.
Por enquanto, vale festejar que esta oficina tenha chegado ao
seu 26º grupo e com tanta coisa a dizer!