Charles
Kiefer - escritor
O
pai da Psicanálise, Sigmund Freud, afirmou que, diferentemente
do que se passa na vida das civilizações - nas
quais as construções vão se degradando,
viram ruínas e dão lugar a novas edificações
que as substituem, apagando rastros do passado - no universo
mental, as vivências ficam registradas, umas sobrepostas
às outras como num enorme palimpsesto, sem que nenhuma
desapareça, embora a grande maioria delas permaneça
indisponível ou inacessível.
Lendo essa afirmação de Freud, in: MACHADO, Ana
Maria Netto. O sexo das letras, imediatamente se estabelece
uma relação com os propósitos do Concurso
Histórias de Trabalho, iniciado em 1994, que vê
na escrita uma possibilidade de trazer à tona o que os
trabalhadores, nas mais diversas áreas do fazer humano,
mantêm, nem sempre disponível ou acessível
em seu universo mental e que é fruto de experiências
acumuladas ao longo de suas vidas: e, a partir desse processo
- valendo-se de outra possibilidade da escrita -, tornar, ao
menos em parte, consciente o produto dessas vivências,
pois escrever serve, após uma reflexão sobre nossas
experiências, para que saibamos no que foi que mudamos.
É,
portanto, em consonância com essas potencialidades de
escrita que o Concurso Histórias de Trabalho - desenvolvido
pela SMC, com o apoio da Unitrabalho e, neste ano, aliando-se
também com o Programa Nacional de Incentivo à
Leitura, através de seu Comitê da Região
Metropolitana de Porto Alegre - apresenta mais esta edição
que contém poesias, crônicas, contos, lembranças
e vivências, redação escolar, histórias
em quadrinhos e cartuns, ensaios acadêmicos e fotografias,
resultado de reflexões que, com certeza passarão
pela via da escrita a permanecer não mais apenas na memória
de seus autores, mas poderão ser compartilhadas e, por
isso, com infinitas possibilidades de repercussão.
Cabe ainda registrar que o Concurso Histórias de Trabalho
extrapolou as fronteiras previamente supostas para seu alcance,
contando com a participação de pessoas de todo
o país, e teve reconhecida sua relevância ao ser
incluída sua publicação na lista "livros
que queremos - ou devemos ler: biblioteca básica para
a formação do professor leitor", elaborada
pelos participantes de curso realizado pela Casa da Leitura,
Rio de Janeiro (Folha Proler, dezembro/1999).
Com a firme convicção de estar contribuindo não
apenas para formação da memória do mundo
do trabalho, mas com a possibilidade de construção
de uma imagem do trabalhador, já que, segundo Benveniste,
"é na linguagem e pela linguagem que o homem se
constitui como sujeito", que o Concurso Histórias
de Trabalho traz à tona mais esta coletânea de
textos, sem perder de vista que usar a palavra é algo
que envolve, muitas vezes, grandes riscos e, por isso mesmo,
esperanças e ambições maiores.